Ameaça de seca no Rio Tapajós preocupa setor produtivo e coloca exportações de Mato Grosso em alerta

Governo Federal prepara dragagem emergencial para garantir a navegabilidade da hidrovia, considerada estratégica para o escoamento da safra de soja e milho do Estado

A possibilidade de uma seca severa no Rio Tapajós voltou a acender o alerta entre produtores rurais, exportadores e autoridades ligadas à infraestrutura logística. Diante da alta probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño entre 2026 e 2027, o Governo Federal prepara uma operação de dragagem emergencial em trechos considerados críticos da hidrovia para garantir a navegação durante o período de estiagem. A medida é vista como fundamental para Mato Grosso, maior produtor de soja e milho do país, que depende do corredor logístico formado pela BR-163 e pela Hidrovia do Tapajós para escoar grande parte de sua produção ao mercado internacional.

Nos últimos anos, a rota que liga os terminais de Miritituba, no Pará, ao porto de Santarém consolidou-se como uma das principais alternativas para reduzir custos e tornar o agronegócio brasileiro mais competitivo. Milhões de toneladas de grãos produzidos em Mato Grosso seguem por caminhão até Miritituba e, de lá, são transportadas em barcaças pelo Rio Tapajós até os portos de exportação, com destino principalmente aos mercados da Ásia e da Europa.

Entretanto, caso o nível do rio diminua significativamente durante a estiagem, a navegação poderá ser interrompida por até quatro meses. Estudos do Governo Federal apontam que, nesse cenário, entre 3,1 milhões e 5 milhões de toneladas de grãos deixariam de ser transportadas pela hidrovia, provocando prejuízos estimados entre R$ 510 milhões e R$ 850 milhões. Além das perdas econômicas, o custo do frete poderá aumentar entre R$ 150 e R$ 250 por tonelada, obrigando produtores e empresas a recorrerem a rotas rodoviárias mais longas e caras.

A interrupção da hidrovia também aumentaria a pressão sobre a BR-163, principal via de acesso aos portos do Norte, e poderia levar parte da produção novamente aos portos de Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná. Essa mudança elevaria os custos logísticos, reduziria a competitividade das exportações brasileiras e aumentaria as emissões de gases poluentes devido ao maior uso do transporte rodoviário.

Para evitar esse cenário, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) pretende realizar a dragagem em sete pontos críticos entre Miritituba e Santarém antes do período mais intenso da seca. O objetivo é remover bancos de sedimentos e manter a profundidade necessária para a passagem das embarcações, assegurando a continuidade das operações logísticas.

Apesar da urgência da intervenção, a iniciativa enfrenta questionamentos do Ministério Público Federal no Pará. O órgão defende que a obra seja precedida de licenciamento ambiental e de consultas às comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais que possam ser impactadas. Já o Governo Federal argumenta que se trata apenas de uma dragagem de manutenção, prevista na nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, sem necessidade de um novo processo de autorização.

Enquanto o impasse jurídico continua sendo discutido, cresce a preocupação do setor produtivo com a proximidade do período de estiagem. Para Mato Grosso, cuja economia tem forte dependência das exportações agrícolas, garantir a navegabilidade do Rio Tapajós tornou-se uma questão estratégica para preservar a eficiência logística, reduzir custos e assegurar que a próxima safra chegue aos mercados internacionais sem comprometer a competitividade do agronegócio brasileiro.

Redação: Hedianne Dutra | G1 | Liberdade FM

 

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