Impasse indígena ameaça conclusão da ferrovia Fico em Mato Grosso

Cronograma de 20% do traçado da ferrovia construída pela Vale pode atrasar; Funai ainda não aprovou plano de impactos às comunidades indígenas

O avanço da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), projeto estratégico de 383 quilômetros previsto para ligar Mara Rosa (GO) a Água Boa (MT), corre risco significativo de atraso. Cerca de 20% do traçado ainda não começou a ser executado devido a impasses envolvendo comunidades indígenas e a pendência de aprovação do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI) pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

O cronograma original previa o início do trecho em 2025, mas, até o momento, não houve mobilização. Segundo a Infra S.A., estatal responsável pelo licenciamento ambiental, o plano foi protocolado na Funai em 2022 e segue em análise, com atividades de campo e consultas às comunidades indígenas ainda em andamento. Não há previsão para conclusão desse processo, o que coloca em risco a meta de entregar os lotes próximos a áreas indígenas até abril de 2028.

Lideranças do povo A’uwẽ (Xavante), do Mato Grosso, estiveram em Brasília nos dias 2 e 3 de março de 2026 para cobrar a demarcação de seus territórios de ocupação tradicional e denunciar os impactos de grandes empreendimentos sem consulta livre, prévia e informada.

O impasse envolve diretamente o povo A’uwẽ Xavante, que denuncia impactos socioambientais graves sobre seus territórios tradicionais, aldeias antigas, cemitérios e locais de coleta de recursos naturais essenciais para sua cultura e sobrevivência. Lideranças indígenas afirmam que não houve Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em assembleia realizada em março de 2026, cerca de 40 representantes de nove terras Xavante reforçaram o repúdio à construção da ferrovia sem o consentimento dos povos afetados, alertando para desmatamento, degradação ambiental, pressões fundiárias e ameaças à biodiversidade.

Apesar de a ferrovia não atravessar diretamente terras indígenas, o traçado passa por áreas de influência das comunidades, exigindo medidas específicas de mitigação ambiental. Mais da metade do traçado já está em execução e dentro das metas previstas, mas a parte próxima às terras indígenas segue paralisada. O projeto, tocado pela mineradora Vale como contrapartida pela renovação da concessão da Estrada de Ferro Vitória-Minas, é considerado estratégico para escoar grãos do Centro-Oeste para os portos do Arco Norte e do Sudeste, reduzindo a dependência do transporte rodoviário.

As lideranças A’uwẽ Xavante afirmam que continuarão utilizando todos os meios legais e tradicionais para proteger seus territórios e cultura, cobrando transparência e respeito aos direitos originários em todas as fases de licenciamento e implementação de obras de infraestrutura.

Redação: Hedianne Alves
Liberdade FM (Folha de São Paulo)

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