China rejeita soja brasileira e governo flexibiliza inspeções após pressão do setor agrícola
Exigências sanitárias mais rígidas travam embarques, levam à suspensão de exportações e forçam mudanças nas regras de fiscalização
A devolução de cargas de soja brasileira pela China e a suspensão de embarques por grandes tradings expõem um momento de tensão no comércio entre os dois países. Responsável por cerca de 80% das exportações do grão brasileiro, o mercado chinês rejeitou recentemente cerca de 20 navios após identificar a presença de ervas daninhas proibidas, consideradas organismos quarentenários — inexistentes no território chinês e, por isso, rigidamente controlados.
O problema, que ganhou destaque nos últimos dias, começou ainda no fim de 2025, quando autoridades chinesas passaram a alertar o Brasil sobre irregularidades sanitárias em carregamentos. Em resposta, o Ministério da Agricultura endureceu as regras de inspeção, intensificando a fiscalização e restringindo a emissão de certificados fitossanitários, documento indispensável para que a soja seja exportada e comercializada no país asiático.
Com o aumento do rigor, diversas cargas deixaram de atender às exigências, impedindo embarques e pagamentos. O impacto foi imediato: empresas como a Cargill suspenderam temporariamente as exportações para a China, além de interromper compras destinadas a esse mercado. Outras tradings, como Cofco International e CHS Agronegócio, também relataram dificuldades operacionais diante das novas exigências.
Diante da pressão do setor exportador, o governo brasileiro decidiu flexibilizar parte das regras. A mudança, oficializada pelo Serviço de Vigilância Agropecuária Internacional, altera o processo de coleta de amostras das cargas. A partir de agora, essa etapa passa a ser realizada por empresas supervisoras contratadas pelas próprias tradings — função que antes era exclusiva de fiscais do Ministério da Agricultura. Mesmo com a flexibilização, o governo manterá a fiscalização direta em 10% dos embarques.
A medida já está em vigor e busca destravar o fluxo das exportações, sem abrir mão do controle sanitário. Segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, a qualidade da soja brasileira é “inquestionável”, mas as preocupações chinesas são legítimas. Ele também anunciou que o Brasil deve propor a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio com a China, com o objetivo de evitar novos impasses.
Apesar da crise momentânea, analistas avaliam que o impacto tende a ser limitado. O volume de cargas rejeitadas representa uma pequena fração diante das mais de 100 milhões de toneladas que o Brasil deve exportar neste ano, e não há, até o momento, registro de atrasos significativos nos portos.
Enquanto isso, entidades do setor seguem em diálogo com autoridades brasileiras e chinesas para garantir a continuidade das exportações e preservar a relação comercial com o principal parceiro do agronegócio nacional.
Redação: Hedianne Alves
Liberdade FM (CNN)



