Excesso de chuva ameaça segunda safra e pode causar perda total em lavoura de Paranatinga

Colheita da soja atrasa, plantio do milho sai da janela ideal e produtores relatam perdas, frustração e impacto financeiro no município


O excesso de chuva em Paranatinga já compromete o avanço do milho segunda safra e provoca prejuízos também na soja, em um cenário que atinge diversas propriedades do município. Após um início dentro da janela considerada ideal, produtores agora enfrentam solo encharcado, atraso nas operações e incertezas quanto ao potencial produtivo das lavouras.

Na propriedade do agricultor Rubilar Pedro Calgaro, de Paranatinga, chorou ao falar das perdas provocadas pelo excesso de chuva na safra de soja 2025/26, o plantio do milho começou no dia 29 de janeiro, com expectativa positiva diante do investimento realizado. No entanto, a sequência de dias chuvosos mudou completamente o cenário. “Até então estava tudo dentro de uma janela perfeita. A gente estava muito confiante, mas agora foi por água abaixo”, lamenta.

Foram pelo menos seis dias consecutivos de chuva, deixando áreas alagadas e impedindo o avanço da cultura. “É complicado até dizer que foi plantado. O milho não saiu, não desenvolveu. É um pouco assustador esse cenário”, relata.

Além do milho, a soja também preocupa. Em uma área de 80 hectares, dessecada há 16 dias e pronta para a colheita há quase uma semana, o excesso de umidade impede a entrada da colheitadeira. Alguns grãos já apresentam apodrecimento e até germinação na vagem. “Se não conseguir passar a colheitadeira aqui dentro de dois, três dias, essa lavoura provavelmente será 100% perdida”, estima o produtor.

O impacto financeiro agrava o cenário. O custo médio da lavoura é estimado em 60 sacas por hectare, meta que dificilmente será alcançada. “Os custos estão elevados e o preço da soja está nos menores níveis dos últimos cinco, seis anos. Aquela esperança de sobrar alguma coisa praticamente já foi pelo ralo. O lucro já foi embora”, afirma, emocionado. “É uma tristeza passar na frente da fazenda e ver tudo por baixo d’água, todo o esforço desde setembro. É desafiador, desanimador.”

O planejamento inicial da propriedade previa o cultivo entre 300 e 320 hectares de milho segunda safra. Porém, os primeiros 80 hectares plantados já indicam dificuldades, com excesso de umidade no solo e atraso nas aplicações necessárias para o desenvolvimento da cultura. Parte da área já saiu da janela ideal, o que deve resultar em redução tanto da área cultivada quanto do potencial produtivo. “Já saiu da janela, a área vai ser reduzida e a produção vai ser menor”, explica.

As aplicações seguem suspensas. “Não conseguimos fazer a primeira aplicação de ureia ainda. Está tudo parado esperando o clima abrir. É desafiador para a soja, desafiador para o milho e todas as expectativas vão se reduzindo.”

O problema não é isolado. Em uma propriedade vizinha, cerca de 30% da área de soja já está pronta para colheita, etapa essencial para liberar espaço ao milho segunda safra. O agricultor Fernando Petri Valdameri afirma que o volume de chuva surpreendeu. “Faltou chuva no começo e agora virou só água. Estamos com uma acumulação de 1.800 milímetros.”

Segundo ele, já são mais de 20 dias de precipitações frequentes justamente no momento decisivo da colheita. “Tem em torno de 250 hectares prontos para começar a colher”, diz.

A preocupação atinge todo o município. De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Paranatinga, Carlinhos Rodrigues, o início da safra indicava boas perspectivas, mas o excesso de chuva interrompeu o ritmo das atividades no campo. “Começamos com uma lavoura muito bonita, chegando ao ponto de colheita com aparência muito boa, esperando boas produtividades. Infelizmente a chuva veio e veio com força.”

Em algumas regiões, as máquinas estão paradas há mais de 20 dias, comprometendo tanto a colheita quanto o plantio. “Praticamente todas as lavouras estão atrasadas com a colheita e o plantio”, afirma. O atraso interfere diretamente na implantação do milho segunda safra. “Nós já teríamos que estar com a maior parte das lavouras de milho implantadas, e isso infelizmente não aconteceu.”

Mesmo diante das dificuldades, Gustavo destaca a importância do milho para o sistema produtivo da propriedade, tanto pela produtividade quanto pela matéria orgânica deixada no solo para a próxima safra de soja. “Nunca tinha visto nada igual. Fevereiro nunca foi de cair tanta água igual esse ano, mas é aceitar as consequências.”

Diante do cenário, a expectativa é de perdas e impacto financeiro significativo aos produtores. “A realidade para a segunda safra é bem problemática. Já começamos a implantação com grandes perdas. Mais um ano que vem testar o coração do produtor e mexendo no bolso”, conclui o presidente do sindicato.

Além dos prejuízos imediatos, os agricultores enfrentam o desafio dos ciclos de chuva cada vez mais concentrados e intensos. Mesmo dentro de períodos tecnicamente favoráveis, o volume excessivo em poucos dias provoca encharcamento do solo, paralisação das máquinas e quebra no planejamento agrícola. Em meio a custos elevados e margens apertadas, a instabilidade climática se consolida como um dos principais obstáculos da produção rural na região, exigindo resiliência e constante replanejamento no campo.

Redação: Hedianne Alves
Liberdade FM (Canal Rural)

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