Recuperações judiciais disparam no Brasil e acendem alerta sobre ambiente econômico

Número de empresas em dificuldade cresce nos últimos anos e reacende debate sobre segurança para investir e manter empregos no país


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O número de pedidos de recuperação judicial no Brasil tem registrado alta significativa nos últimos anos, refletindo um cenário de desafios econômicos, crédito mais restritivo e aumento dos custos operacionais. O movimento acende um alerta sobre o ambiente de negócios no país e os impactos diretos na geração de empregos e na confiança de investidores.

Especialistas apontam que a combinação de juros elevados, dificuldade de acesso a financiamento, inadimplência crescente e oscilações no consumo tem pressionado empresas de diferentes portes e setores. Comércio, indústria, construção civil e agronegócio figuram entre os segmentos mais afetados.

O agronegócio brasileiro registrou, no segundo trimestre de 2025, o maior número de recuperações judiciais (RJ) da sua história recente. Segundo a Serasa Experian, foram 565 pedidos no período — alta de 31,7% em relação ao mesmo trimestre de 2024 e avanço de 45,2% frente ao primeiro trimestre deste ano.

O dado evidencia o aumento da pressão financeira no campo. Pela primeira vez desde o fim de 2023, produtores que atuam como pessoa jurídica (PJ) lideraram os pedidos, somando 243 casos — mais que o dobro de um ano antes. O movimento indica que a crise deixou de atingir apenas pequenos produtores e passou a alcançar empresas maiores, com acesso formal ao crédito.

Entre os principais fatores estão margens apertadas, custos elevados de insumos, juros ainda altos e crédito mais restritivo. Mesmo com a redução gradual da taxa básica de juros, o custo efetivo do financiamento segue elevado, enquanto bancos e tradings endurecem garantias. Empresas que expandiram durante ciclos favoráveis, muitas vezes com alto grau de alavancagem via CPRs, barter e derivativos, enfrentam agora dificuldades para manter o fluxo de caixa.

 

Comparação entre governos

A escalada das recuperações judiciais também reflete o ambiente macroeconômico ao longo das diferentes administrações federais.

Durante o governo de Dilma Rousseff, o país enfrentou recessão e forte deterioração fiscal, com aumento do desemprego e retração do crédito. No período seguinte, sob Michel Temer, houve estabilização institucional e reformas estruturais, como o teto de gastos, mas o crédito permaneceu limitado e a recuperação foi gradual.

Já na gestão de Jair Bolsonaro, o agronegócio viveu forte ciclo de alta impulsionado pelo câmbio desvalorizado e pelo aumento das exportações, especialmente durante a pandemia, quando o setor sustentou o PIB. Houve expansão e maior acesso ao crédito rural, favorecendo crescimento e investimentos.

No atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor enfrenta cenário de juros elevados herdados do ciclo inflacionário pós-pandemia, queda nos preços internacionais de algumas commodities e maior seletividade no crédito. A combinação de desaceleração econômica global, custos ainda pressionados e redução das margens contribui para o aumento das recuperações judiciais.

 

Alerta estrutural

Especialistas avaliam que o problema não é apenas conjuntural. A alta das RJs expõe fragilidades de gestão financeira e governança. Empresas com elevada alavancagem e baixa reserva de capital tornaram-se mais vulneráveis em um ambiente de crédito caro e menor liquidez.

O agronegócio, motor da economia nacional, dá um sinal claro: produtividade já não é suficiente. Em ciclos de maior volatilidade, sobreviver exige controle rigoroso do endividamento e estratégia financeira sólida.

Apesar do cenário desafiador, especialistas destacam que a reestruturação pode ser uma oportunidade para modernização da gestão, revisão de custos e adaptação ao mercado. No entanto, reforçam que medidas estruturais para melhorar o ambiente de negócios — como simplificação tributária, maior previsibilidade econômica e ampliação do acesso ao crédito — são fundamentais para reduzir o número de empresas em situação de risco.

O crescimento das recuperações judiciais, portanto, vai além de números. Ele sinaliza a necessidade de atenção ao ambiente econômico brasileiro e à criação de condições mais seguras para investir, produzir e manter empregos.



Redação: Hedianne Alves / Liberdade FM

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